"Hoje é um dia de festa e eu estou muito feliz de estar aqui". A belga Fanny Cullard resumiu bem o clima no Chapéu-Mangueira e na Babilônia, duas comunidades da Zona Sul do Rio que abriram a programação da Rio+20 nas comunidades pacificadas. Os moradores da Rocinha, Vidigal, Complexo do Alemão, Cantagalo e Pavão-Pavãozinho e Cidade de Deus, junto com a equipe de gestão do programa Territórios da Paz, da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, também organizaram roteiros que vão ocupar as comunidades até o próximo dia 23.
"Seis meses depois eu vejo a relização do projeto Rio + 20 Comunidades. A secretaria foi apenas um canal de comunicação e deu a estrutura para que os moradores pudessem realizar esse evento que foi feito por e para eles. Esses moradores querem participar da construção da sociedade e, hoje, na inauguração desses roteiros, aqui no Chapéu-Mangueira, mostram que estão mobilizados para isso", destacou o superintendente de Territórios, Daniel Misse, que disse ainda que "esta é a primeira vez que o Estado tem uma grande parceria com as comunidades, pautada no diálogo".
No Chapéu-Mangueira e Babilônia, a programação se estende das 10h às 22h, nos dias 14 e 15 e conta com caminhadas ecológicas, desfile de roupa feita com pet, oficina de culinária, teatro, bate-papo Favela, entre outras atividades, como uma feira de artesanato, onde até as jóias vendidas são sustentáveis.
"A comunidade vem se reunindo com a equipe social do Territórios da Paz desde março para pensar nesse evento envolvido na conferência da Rio+20. A gente criou uma comissão e o nosso prazer foi conseguir fazer parte de uma atividade que foi planejada por nós mesmos. Antes, as coisas chegavam já prontas e a gente não podia opinar", comentou Eduardo Henrique, morador há 18 anos do Chapéu-Mangueira.
Para os moradores ou para os visitantes, a Rio+20 Comunidades é uma bela forma de marcar uma mudança pela qual as duas comunidades estão passando. Por isso, o roteiro incluiu diversos pontos das duas favelas, até mesmo aqueles que não são badalados.
"Eu trabalho como voluntária aqui no Chapéu-Mangueira desde 2006 e eu vejo as mudanças desde que a UPP foi implantada. As crianças eram muito oprimidas. Elas não sorriam. Quando eu dava lego para a brincadeira, elas construiam armas. Era essa a realidade que eles estavam acostumados. Os bandidos ficavam armados em frente à creche. Hoje, vemos que a comunidade está mais livre e as pessoas descontraídas e eu sinto que elas estão muito felizes com esse evento", disse Geni da Silva, que é dentista e artista plástica e, de forma lúdica, trata de temas como higiene e educação com as crianças.
Geni e o filho Rafael Fernandes é que levaram o casal Fanny Cullard e Laurence Devers, que estão hospedados em sua casa, no Jardim Botânico, para ir ao evento. Rafael disse que a mãe estava muito feliz e ela concorda: "aqui eu sempre estou feliz, porque tem as minhas crianças".
"Mesmo vindos de fora eles não tinham nenhuma imagem das favelas e eu disse que não eles não precisavam se preocupar. Essas duas comunidades estavam muito abandonadas e hoje elas conseguem se organizar e realizar um evento como disse", disse Rafael que pensa em prestar vestibular para engenharia ambiental.
Para a equipe de gestão social do Território, a materialização do dever cumprido é mostrar a cara da Babilônia e a cara do Chapéu-Mangueira: "O evento aqui tem desfile de moda, bate-papo sobre favela para que os moradores pudessem mostrar a cultura e a memória dessas duas comunidades. As mudanças, em vinte anos, foram fundamentais para que os moradores se tornassem sujeitos ativos de sua história. Hoje, a favela é dos moradores, de seus parentes e amigos e de quem mais quiser subir o morro", resumiu Flora Daemon, gestora social do Chapéu-Mangueira e da Babilônia.